quarta-feira, 30 de setembro de 2015

As percentagens do fracasso.

Há duas semanas atrás uma revista entrou em contacto comigo para fazer parte das 80 ofertas aos seus leitores a próposito dos seus 8 anos de vida. Primeiro tive a reacção arrogante tipo "nem pensar, a TOMAZ não entra em promos 2por1 - too exclusive", mas inevitavelmente fiquei a pensar nas oportunidades escondidas - promover mais a marca e o nome, fazer dinheiro (ainda que este não seja lucro), perceber se o preço é um problema, chegar a mais pessoas, etc etc etc... e no fim rematei os argumentos com "as outras 79 marcas são de topo, portanto isto é um grande elogio à TOMAZ, e claro, marcas que respeito como o Marni, Jil Sanders, Prada, etc etc etc... também entram em giveaways, descontos e promoções. Assim sendo Eliana, a rigidez de pensamento nunca foi amiga da evolução".

Isto parece tudo muito simples, fácil, pragmático e certeiro mas não é! Aliás, nestas duas semanas aconselhei-me com vários amigos, pesquisas online, estudos sobre consumo, marketing, websites e posturas de mulheres entrepreneurs de força (por exemplo, Natalie Massenet a fundadora de Net-a-Porter) que são uma verdadeira inspiração.
Nisto tudo, houve uma conversa com um amigo que me deixou deveras desconfortável, não pelo seu ponto de vista que explico já de seguida, mas com a realidade que é efectivamente posta em prática na gestão de empresas nos dias de hoje.

O raciocinio dele foi este:
Qual é a tiragem da revista semanalmente?
20 mil?
Então, 1% é 200, logo tens de vender 200 peças - estás preparada para pôr 200 peças na rua?
Se não vender 200 peças, 100 vá, a marca está com um problema e tens de perceber qual é!

A minha resposta à ultima pergunta foi - nem que não durma.
Refutei este raciocínio por várias razões:
Ponto 1 - não faço marketing analítico-financeiro.
Ponto 2 - faço marketing emocional (não existe nos livros, mas existe na minha cabeça - este marketing também é conhecido por I follow my gut)
Ponto 3 - uma marca que acabou de nascer não pode ser posta à prova desta maneira - está com um problema grave porque não vende 200 sacos numa semana (I wish!!).
Ponto 4 - fazer uma marca crescer, seja ela em modo part-time ou full-time, é como fazer crescer um ser vivo qualquer: planta, animal, pessoa ou outro ser qualquer, requer tempo, falhanços, melhoramentos e muito cuidado.

As empresas não são números manipulados numa folha de excel. Tudo o que é manipulado não é natural, logo mais dia menos dia o castelo vai abaixo.
As empresas / directores / administradores querem ganhar mais dinheiro com menos recursos e com uma crise financeira e económica instalada - o colapso é garantido.

Criar empresas / marcas é uma tarefa dura, que nos desafia a cada momento, nunca sabemos se estamos a fazer bem ou mal (nas decisões empresariais que tomamos). Tudo é um risco, podemos ser vitimas do próprio sucesso, vamos ter dias péssimos, também ganharemos muitas batalhas e, ainda que nos aconselhemos com amigos e outros estudos, as decisões são sempre nossas.

Daqui tiro um grande ensinamento - ouve sempre o que os outros têm para te dizer, seja um ponto de vista emocional ou técnico, mas quando chegar a vez de tomares a decisão, escolhe aquela que dá lógica ao teu projecto.

E já agora lembra-te sempre que nada disto é glamoroso. Sempre que sou recompensada pela imprensa (a TOMAZ já saiu na MáximaTimoutAlmanaque DIF) estou tão cansadas, tão de rastos, tão já na tarefa seguinte que são os meus amigos e família que fazem a festa toda. Já eu limito-me a apanhar os restos dos foguetes... mas claro, sempre de sorriso rasgado e um agradecimento gigante ao universo.